Por que quando eu viajo volto amando ainda mais o Brasil

A maioria dos brasileiros sempre teve mania de enxergar as qualidades dos outros e os próprios defeitos. Até aí tudo bem. Só assim para conseguirmos melhorar e evoluir. Só que tudo vira um problema quando começamos a acreditar apenas nos outros e não em nós mesmos.

Por muito tempo, brasileiro não viajava pelo próprio país. Chique era pegar um avião rumo à Europa ou aos Estados Unidos mesmo sem nunca ter saído de São Paulo. E quando voltava, depois de uma semana em Miami, o papo era sempre o mesmo. Só elogios para lá e só críticas para cá.

Porque lá o transporte funciona, as pessoas não jogam lixo na rua, as praias são limpas, o povo é educado e tem muito mais qualidade de vida. Já aqui… “Aqui é péssimo, se eu pudesse me mudava agora”.

Em uma semana, as pessoas amavam o exterior e odiavam seu próprio país. Enxergavam uma realidade de turista e comparavam com a realidade de morador. Viviam a vida camuflada criada especialmente para quem vinha de fora e não se preocupavam em ir além.

Com o tempo, os brasileiros passaram a enxergar mais suas próprias qualidades, valorizar suas belezas e, principalmente, seu povo. Mesmo assim, muitos ainda continuam acreditando que tudo lá fora é melhor do que aqui. Aliás, muitos falam isso com tanta certeza mesmo sem nunca ter saído do Brasil.

Por que quando viajo voltando amando ainda mais o Brasil (Foto: Instagram/Esse Mundo é Nosso)

Recentemente, eu fiz duas viagens praticamente grudadas. Quando me perguntaram para onde eu ia, respondi todo feliz: “Fernando de Noronha”. A pessoa disse sem muita empolgação: “Ah… Legal! Pra onde mais?”. E eu falei: “Nova York”. “Nossa! Deixou a melhor parte para o final hein! Aí sim”, afirmou.

Eu estava tão mais empolgado para Fernando de Noronha. Amo Nova York, mas Noronha era um sonho. Já para aquela pessoa sair do país era muito mais chique do que continuar nele.

Por que quando viajo voltando amando ainda mais o Brasil (Foto: Esse Mundo é Nosso)

Com o passar do tempo, fui conhecendo mais países e mais culturas. Comecei a notar como o Brasil está presente na vida das pessoas de alguma forma. Não é raro estar em outro lugar para ouvir alguma música nossa tocar. E não é só Michel Teló e Gusttavo Lima, o que, para mim, já seria ótimo de qualquer jeito. É Chico, Caetano, Vinícius, Tom e Roberto Carlos.

Andando por aí, sempre vejo pessoas com camiseta do Brasil, imagens do Rio espalhadas, gringos amando Havaianas e todos querendo saber mais da nossa cultura, aquela tão desvalorizada por nós mesmos.

Uma vez estava conversando com um japonês. Nós nos encontramos nos Estados Unidos durante um curso. Ele era de Tóquio. Quando me perguntou em que cidade eu morava, respondi “São Paulo” já pronto para falar do Rio de Janeiro achando que ele não saberia nada sobre a cidade. Para a minha surpresa, ele ficou empolgado, disse que sempre via São Paulo na TV e que tinha muita curiosidade de conhecer.

Por que quando viajo voltando amando ainda mais o Brasil (Foto: Esse Mundo é Nosso)

Isso sem falar dos clichês futebol e carnaval. E eu não ligo de falar sobre isso com as pessoas. Fico feliz em explicar os diferentes tipos de festa que tem por aqui. Amo falar como nosso país é grande, conto dos problemas, mas sempre termino com um elogio. Da beleza natural, das pessoas, dos sorrisos, dos prédios, das nossas diferenças culturais.

Amo conhecer novos lugares, novas pessoas, ambientes, praias lindas, arranha-céus. Mas quando viajo, viajo sendo brasileiro. E carrego isso com orgulho na minha alma e nas minhas atitudes. Vivo a cultura do lugar em que estou, mas continuo sendo do meu país, da minha raiz. Continuo tentando mostrar para o mundo muito mais do que eles sabem de nós.

Por que quando viajo voltando amando ainda mais o Brasil (Foto: Instagram/Esse Mundo é Nosso)

Volto amando os locais que conheci, mas volto amando ainda mais meu país. Porque sei que, apesar de todos os problemas, o Brasil sempre estará aqui para me receber. Sempre terei esse aconchego que só os brasileiros sabem dar. Sempre terei o sorriso do desconhecido, a ajuda da pessoa que passa na rua, os beijos e abraços calorosos e todos os nossos problemas para resolver.

Mesmo quando volto não querendo voltar, se encontro um gringo no meio do caminho e ele me pergunta de onde sou, já respondo empolgado, mostro fotos, faço a maior propaganda.

Talvez seja isso que falte a alguns brasileiros: amor próprio. Amor para perceber que temos muitos problemas, mas que todos os países têm em menor ou maior escala, e que temos muitas qualidades que nenhum outro lugar tem. Além de algo que só nós temos: nós mesmos, os brasileiros. Isso não adianta tentar copiar. Só a gente sabe como é ser brasileiro e o que é poder chamar este país de nosso.

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* Agradecemos o @ab_negreiros pela foto cedida nas redes sociais para ilustrar esse post

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Adolfo Nomelini

Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

9 Comments

  1. Jabulani disse:

    achei interessante o post, porém tenho algumas ressalvas.
    Acredito que é melhor morar em um lugar com pessoas frias e que não perturbam meu sono eu meu silêncio nos momentos em que quero evoluir estudando. Preciso de concentração para fazer o que faço e no Brasil, se eu não morar no interior ou em um bairro bom (caro como Vila Mariana, e outros lugares tops de SP) é praticamente impossível ter paz. É fácil ver as belezas quando se mora em um lugar bom. É mais fácil ver como é bom lá fora quando você mora na periferia assim como eu moro. Mesmo em condomínios as pessoas não estão nem aí para quem mora embaixo em um apartamento. Não estão nem aí se o barulho do carro ou do bar está perturbando alguém. Ter esse tipo de companhia é bom para quem só quer farra. Para quem quer contribuir com trabalho e estudo, nesses lugares quase não há espaço! é uma luta diária usando protetor auricular, colocando so white noise pra tentar ter um pouco de paz.

    Solidão que eu senti quando estava na país foi somente com relação aos meus pais. Do resto… prefiro estar com gente fria mas educada.

    Só queria mostrar um pouco do outro lado da moeda também.

  2. Lela disse:

    Gosto muito de viajar e voltei agora de Las Vegas e apesar de toda aquela exuberância de hotéis e shows que é próprio do local, tava numa vontade louca de voltar para o Brasil. Já fiz viagens incríveis e lindas, mas tem hora que a gente vê que o melhor lugar mesmo é o nosso Brasil. Como minha filha estava com sua filhinha de 7 meses, pude observar uma coisa: em nenhum lugar, nem mesmo no aeroporto havia atendimento prioritário e ela tinha que ficar com um bebê em filas. Tudo bem que Las Vegas não é lugar para bebês, mas aí já é outra história. Nosso País tem lugares lindos e maravilhosos e não é à toa que muitos estrangeiros escolhem viver nos paraísos brasileiros que muitas vezes ignoramos.

  3. Lindo texto, Adolfo.
    Exatamente isso que eu penso. Amo viajar para o exterior, mas amo ainda mais conhecer meu país, me embrenhar pelo sertão nordestino, conhecer hábitos diferentes, comidas típicas, músicas…

    Me cansa demais ver as pessoas criticando e compartilhando problemas do nosso país, e pouca gente reconhecendo o que temos de bom.

    Beijos,
    Karla

  4. Renata Bortoletto Nuber disse:

    Adolfo,
    Perfeito seu texto…colocou em palavras o que eu penso e sempre comento com as pessoas.
    Sempre viajamos muito (dentro e fora do Brasil) e hoje moramos na Alemanha.
    Ouço sempre esse tipo de comentário e sempre digo: uma coisa é fazer turismo, outra bem diferente é viver e conhecer o dia a dia de outro país…não se iludam, não existe lugar perfeito e como você bem disse, todos tem problemas.
    Pior é ouvir comentários desse tipo de pessoas que se acham entendidas só pelo fato de ter descendência européia, mas que muitas das vezes nunca saíram da cidade ou do estado que residem.
    Também tenho descendência européia, mas nasci no Brasil…amo e tenho muito orgulho de ser brasileira.
    Sempre disse e repito: não existe povo melhor que o povo brasileiro!
    Parabéns pelo texto!
    Vou compartilhar em minha página 😉

  5. Adolfo,

    Sério, o melhor texto que li nos últimos tempos.
    E a finalização foi a melhor: o que falta é amor próprio.

    Parabéns, parabéns e parabéns!

  6. Você me fez chorar! Moro ha 2 anos na França e não aguento mais de saudades… vontade de largar tudo e voltar, voltar pra meu lugar, para o lado dos meus! Aqui eu conheci a verdadeira solidão, a verdadeira saudade que dói na alma… 🙁

    • Imagino como você se sente, Rebecca!! Saudade é algo inexplicável! Mas tente aproveitar a oportunidade de estar em um país diferente para aprender e voltar ainda melhor um dia para o Brasil!

      Abs e obrigado pelo comentário!

    • Josy Tosta disse:

      Sei o que você sente Rebecca! Morei um ano e meio nos EUA e senti uma solidão absurda, senti falta da receptividade brasileira, como é mais fácil fazer amizade aqui e lá as pessoas eram tão frias..Senti vontade de largar tudo e voltar muitas vezes, mas te digo, aproveite as coisas boas que você tem aí, porque no dia que você voltar também vai sentir falta delas! Eu voltei pro Brasil e matei a saudade, mas às vezes sinto falta de lá também e das pessoas incríveis que conheci lá (a maioria brasileiros de todo canto e outros estrangeiros), então aproveita e tenta pensar positivo!!

      Adolfo, adorei seu texto, também reflete minha forma de pensar! Fico chatiada quando eu vejo as pessoas depreciarem tanto o Brasil e exaltarem os países de fora. Na verdade, pra ser sincera acho que isso é um dos grandes males que não ajudam nosso país ser melhor, pois quando a gente não ama, não cuida. Se os brasileiros amassem um pouco mais o país que tem e o seu povo, não fariam tanta coisa ruim contra ele mesmo. Espero que um dia isso mude, espero que as próximas gerações tenham mais consciência disso.

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