Vale tudo para ter curtidas numa foto nas redes sociais?

Está cada vez mais chato viver num mundo onde o que importa é o que você posta e não necessariamente o que você vive. Eu trabalho com isso e seria hipócrita se dissesse que gostaria que as redes sociais acabassem, mas viajando por aí percebo o quanto as pessoas estão mais preocupadas com aquilo que vão publicar no perfil do Instagram ou mandar nos grupos do Whatsapp do que necessariamente com o que vivem.

Eu já até escrevi um post perguntando se as pessoas viajam pra si ou para ter curtidas. Infelizmente, acho que a segunda opção é a mais correta ultimamente. Tenho certeza que muita gente escolhe viajar para determinado lugar porque dará ótimas fotos e stories lindos. Sabe quando a festa está um saco, vazia, sem ninguém, mas você junta três pessoas e faz um vídeo dançando muito só pra mostrar que está bombando? É bem isso!

Vale tudo para ter curtidas em uma foto? (Foto: Pixabay)

O grande problema é que as pessoas estão ultrapassando certos limites apenas para tirar uma foto legal e conseguir muitas curtidas. Esses dias a gente foi pra Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Lá está localizada a Praia do Aventureiro, que é muito famosa por ter um coqueiro na horizontal.

Praia do Aventureiro - Ilha Grande (Foto: Esse Mundo é Nosso)

Fomos na baixa temporada, mas dizem quem em épocas mais movimentadas, chega a ter fila para conseguir tirar uma foto lá. Até aí tudo bem. Todo mundo quer chegar perto do coqueiro e reproduzir uma foto que sempre vê nas redes sociais. A questão é que lá do lado do coqueiro tem uma placa bem grande escrito “Não suba”, inclusive em inglês.

Estávamos lá esperando ficar bem vazio para tirarmos uma foto para o blog quando de repente surgiram duas turistas argentinas. Elas tiraram diversas fotos com o coqueiro de fundo. Ótimo! As fotos deviam estar ficando lindas. Só que de repente uma delas simplesmente ignorou a placa e subiu no coqueiro apenas para tirar mais uma foto.

Não aguentei. Na hora, eu falei pra ela da placa e pedi para que descesse. Claro que ela não ligou e continuou lá fazendo as poses. Comecei a falar pra ela respeitar as regras e que se ela não quisesse cuidar do país dela, que cuidasse do meu. Ela argumentou que era só uma e que o coqueiro estava firme. Retruquei dizendo que regra é regra. Se não é para subir, não é para subir. Ela só resolveu descer quando eu peguei meu celular e comecei a fazer stories. Ficou com vergonha e saiu correndo.

Esse é só um exemplo pequeno do que anda acontecendo por aí. Vale a pena prejudicar ainda mais a natureza só pra tirar uma foto? Só para receber elogios invejosos no Instagram?

Em uma outra praia também de Ilha Grande há uma pedra muito alta e escorregadia. Os guias falam o tempo todo para ir nela apenas acompanhados pelo guia e que não era para ir no canto porque escorrega. Resultado: uma semana antes da gente ir uma turista quis ir lá só para tirar uma foto, escorregou, caiu no mar, ficou toda machucada e ainda atrapalhou o passeio dos outros. No dia em que fomos, não aconteceu nada, mas uma turista estrangeira também resolveu ir além do que o guia tinha pedido apenas para ser fotografada.

Há cerca de dois anos, vocês devem lembrar, um casal de turistas resolveu pegar um filhote de tubarão em Fernando de Noronha para tirar uma selfie. Sim! Uma selfie com um filhote de tubarão. Claro que ele não gostou da experiência e mordeu o dedo da mulher. Eles foram autuados e tiveram que pagar uma multa de R$ 10 mil cada, além de responderem criminalmente. E isso acontece muitas vezes com outros animais por aí.

Sem contar, os inúmeros casos de pessoas que morreram ao tentar tirar uma selfie ou foto. São muitas as histórias que já foram noticiadas pela imprensa. Pessoas que morreram afogadas, outras que caíram de penhasco e até de prédios. Todas em tentativas de selfies. Uma pesquisa feita pela Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, e pelo Instituto Indraprastsha de Tecnologia da Informação, na Índia, e publicada pela Viagem e Turismo, mostra que de 2014 a 2016 pelo menos 127 pessoas morreram devido a selfies no mundo.

O aplicativo Saftie foi criado inclusive para mapear os lugares mais perigosos do mundo para tirar selfies. O Wikipedia também fez uma lista relembrando alguns dos casos. E são muitos mesmo. Alguns exemplos:

Uma foto vale uma vida? Vale estragar a natureza ou um patrimônio histórico só para ter curtidas? Por um lado, era bom quando viajávamos e tínhamos apenas 36 poses para registrar, né?

Vale tudo para ter curtidas em uma foto? (Foto: Pixabay)

Se aproveitássemos muito mais a viagem nem teríamos esse tipo de problema. Se não perdêssemos tanto tempo pensando em como agradar as pessoas que nos seguem nos nossos perfis pessoais, viveríamos experiências muito mais reais.

Não tiro um pouco da nossa culpa nisso também. Blogueiros de viagem postam fotos lindas de lugares incríveis o tempo todo e isso acaba incentivando as pessoas a fazerem o mesmo. Não apenas a irem a estes lugares, mas a tirarem fotos sensacionais. Por isso, é nosso papel mostrar que não podemos ultrapassar limites sejam esses de segurança ou de preservação.

Vale tudo para ter curtidas em uma foto? (Foto: Pixabay)

Antigamente diziam que o jornal de hoje embrulhava o peixe de amanhã. Agora, é tudo ainda mais rápido. A foto de agora será substituída por outra daqui a alguns minutos. E a atenção que alguém deu pra tal foto foi de poucos segundos. Portanto, durante a viagem, registre tudo pra você e não para os outros. E lembre-se que o mais importante é aproveitar de verdade e ter boas histórias para contar e levar pra vida toda.

Viaje por você e não pelos outros!

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Adolfo Nomelini

Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

2 Comments

  1. Alex Melo disse:

    Acho que sempre teve alguns que se arriscaram nisso, mas agora exacerbou muigo.
    Em 2004 em Machu Picchu, quando as câmeras digitais estavam começando a ficar mais popoulares, lembro de um colega na beiradinha dos precipícios lá caminhando e tirando selfie. Que medo do caramba daquilo.
    Com a massificação é mais gente fazendo a mesma coisa, e assim mais acidentes ocorrendo.

    Eu, como não vivo de mídias, acabo postando bastante foto em viagens no facebook, principalmente para a família que ficou e que, se passar 3 ou 4 dias sem postar, já estão cobrando.
    Pior que depois passam-se anos até que vejamos novamente estas fotos, já que são tantas e tantas, várias iguais, que dá preguiça.

    Assim, qual não foi minha surpresa ao, nos últimos tempos, me empolgar criando photobooks onde imprimo estas fotos – já são muitos álbuns, com fotos de 2003 para cá e que são para consumo próprio mesmo. Deixo estes álbuns em um canto especial da sala e pego para rever de vez em quando, lembrando o que já fiz e me inspirando para o que mais pode ser feito.

  2. Mari disse:

    Nossa, que post necessário. Teve também um caso no museu, se não me engano, que quebraram uma obra em exposição para tirar foto. Isso de tirar uma foto que todo mundo já tirou é tão verdade. Várias fotos de diferentes pessoas do mesmo jeito. A impressão que fica hoje é que se você não posta, você não fez.

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