Por que viajar me fez ser menos preconceituoso

Muita gente encara viajar como um simples e puro lazer. E pode ser só isso mesmo. Passar uns dias num resort só comendo, bebendo e curtindo a praia é ótimo, mas viajar pode ser muito mais do que isso.

VIAJAR ME FEZ SER MENOS DONO DA VERDADE E PRECONCEITUOSO

Às vezes a gente cresce tendo certas crenças que parecem ser as únicas possíveis de existir. Vivemos num meio e somos moldados por ele de tal forma que nos tornamos incapazes de enxergar o que está fora da nossa realidade. Crescemos estudando nas mesmas escolas, convivendo com o mesmo grupo de amigos, lendo os mesmos jornais, frequentando os mesmos shoppings e assistindo aos mesmos canais de TV. O que isso tem de errado? Nada, mas nos tornamos mais do mesmo. A gente se torna singular.

Por natureza da vida, acabamos nos envolvendo com pessoas que pensam como nós e que têm uma realidade de vida bem parecida com a nossa. Passamos tanto tempo no trabalho que os colegas acabam virando os nossos amigos. E aí os assuntos se tornam os mesmos e os problemas também. Se não tentarmos abrir nossos horizontes por nós mesmos, acabamos nos tornando pessoas com uma visão limitada do mundo.

Por que viajar me fez ser menos preconceituoso (Foto: Pixabay)

Os problemas sociais, a religião ou a religiosidade, a violência, o preconceito. Achamos tudo de acordo com que lemos, assistimos ou conversamos. Criamos ideais sem nos preocupar em ouvir e enxergar a pessoa do lado, aquele que foge um pouquinho da nossa realidade. Sabe aquele cara que se veste diferente de você, que frequenta outro tipo de religião ou que come comidas que você nunca teve coragem de provar? Não damos nem espaço para conhecer. Estão errados e pronto. Se eu e a maior parte das pessoas que eu conheço são como eu, acreditamos que estamos certos, né? E foi exatamente aí que viajar me fez tentar ser tão diferente.

Continuo viajando às vezes por lazer sim. Passei uma semana num resort e foi incrível. Mas viajar deixou de ser apenas isso pra mim. Passou a ser uma janela pro novo, pro mundo. A maior forma de conhecimento que eu poderia ter depois de tanto estudar. Como eu queria ter tido essa chance durante a infância e a adolescência. Seria um cara muito melhor hoje em dia porque teria crescido entendendo que o mundo não é a bolha que eu vivo.

Por que viajar me fez ser menos preconceituoso (Foto: Pixabay)

Nem precisa ir longe, viajar no nosso próprio país dá um choque de realidade tremendo. Pra cima e pra baixo. Entendemos que tem gente muito rica, que passeia de Ferrari aos finais de semana, e tem gente que não tem o que comer há dias. Conhecemos diversas religiões e passamos a acreditar em muitas. Aliás, entendemos como a religiosidade é mais importante do que qualquer religião.

Nunca esqueço o dia em que estávamos na Bahia. Íamos de Caraíva a Arraial d’Ajuda de ônibus, mas ele quebrou e ficaríamos não sei quantas horas esperando. O jeito foi pegarmos carona com um casal que estava indo pra Porto Seguro. Que sorte aquele ônibus ter quebrado. Durante 1h30 a gente teve uma verdadeira aula, uma troca de experiência incrível.

Por que viajar me fez ser menos preconceituoso (Foto: Pixabay)

Ela me contou o esforço que foi para conseguir se formar em Enfermagem. A luta para conseguir ir pra aula presencial algumas vezes por mês de ônibus na estrada que por qualquer chuvinha fecha. Contou que a energia elétrica havia chegado lá há alguns anos e relembrou como foi quando os “hippies brancos” chegaram em Caraíva pela primeira vez. Eles eram isolados e nunca tinham visto outras pessoas que não os amigos da comunidade. Foi um choque de cultura pra mim! Até então estava enxergando Caraíva como uma cidade charmosa do litoral baiana que era ótima para relaxar. Voltei diferente pra casa.

E eu sempre falo isso. Quando entro no avião, sei que não vou voltar igual. Porque a partir daquele momento vou conhecer tantas pessoas, trocar tanto que não tem como ser o mesmo na volta. Se for, tem algo de errado.

Viajando por aí me fez entender o quanto somos pequenos. O mundo gira com ou sem a gente. E quebramos a cara muitas vezes saindo do nosso mundinho. Não é fácil tentar eliminar preconceitos para conhecer o novo com um olhar puro, mas quanto mais fazemos, mais automático vai se tornando.

Não precisamos admirar ou concordar, o importante é aprender a respeitar e entender que não somos donos da verdade. Existem muitas verdades e cada um pode ter seu ponto de vista de acordo com a sua realidade. E para saber se é realmente uma verdade, somente vivendo naquele meio. Olhar de longe, olhar pela vitrine ou da plateia não é a mesma coisa.

Em tempos tão difíceis com tanta gente querendo apontar os dedos, viajar faz a gente mais leve e mais consciente do que é o mundo e qual é o nosso papel nele. Faz a gente pensar mais antes de falar e faz a gente ampliar nossos horizontes.

Por que viajar me fez ser menos preconceituoso (Foto: Pixabay)

Não é errado viajar apenas para descansar e curtir, mas tente unir isso a conhecer culturas e trocar experiências. Sair da bolha, da caixinha, do hotel. Virar a rua sem saber o que vem por aí. Ir além do ponto turístico. Comer além do restaurante feito pra turista. Pode ter certeza que isso faz da gente seres humanos muito mais evoluídos.

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Adolfo Nomelini

Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

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