Eu cresci sabendo que não me encaixava nos padrões. Isso porque desde os três anos de idade uso óculos de grau forte e passei a vida toda sendo motivo de piadas e olhares estranhos por onde passava.

Na verdade, acho que deve ter sido um baque quando um dia percebi que a sociedade tradicional não estava acostumada a ver alguém com os óculos fundo de garrafa levando uma vida normal.

Na TV, nenhum galã ou mocinha usa óculos de grau forte. Quando algum personagem aparece com o temido fundo de garrafa, ele vem acompanhado de uma roupa bizarra e um cabelo horrível. Sempre vai ser o nerd ou CDF zoado pela turma e que, vez ou outra, consegue se transformar em alguém bonito no final da trama (já sem óculos, claro).

Até porque sempre que querem enfeiar alguém jogam os óculos fundo de garrafa na pessoa. Não vou comparar com nenhum outro “esteriótipo” ou “preconceito” por aparência porque sofrimentos não devem ser comparados, mas sim respeitados.

Fora dos padrões estéticos na internet (Foto: Esse Mundo é Nosso)

A verdade é que nunca escuto ninguém falar sobre isso. Ninguém pensa que quando mostra o personagem assim só reforça o preconceito que quem usa óculos de grau forte irá sofrer, principalmente as crianças.

Mas fato é que entre piadinhas e olhares de espanto, levei bem a infância e adolescência usando meus óculos de lentes grossas e que aumentam meus olhos. Não vou ser hipócrita e dizer que se pudesse continuaria com eles a vida toda. Claro que não! Adoro óculos, mas queria óculos normais. Sim! Porque eu sei que os meus não são normais. Se eu pudesse escolher, com certeza, teria pelo menos metade dos graus que eu tenho.

Ahh! Essa é uma história boa também. Desde pequeno perguntam quantos graus eu tenho. E desde pequeno eu minto. E não minto para esconder, mas minto para me divertir. Porque eu sei que se eu falar 5, 10 ou 20 a reação será sempre a mesma: “Nossa! Você não deve enxergar nada sem os óculos”. Então, eu vario de acordo com o meu humor kkkk.

Outra coisa que sempre acontece: “Posso ver como fico com seus óculos?”. Sou muito educado (juro!), mas essa é uma pergunta que eu respondo com um “NÃO” bem grande. Desculpe, mas meus óculos não são brinquedos. Eles custam caro e são muito importantes pra mim. Então, não gosto que as pessoas os peguem e coloquem nos rostos delas.

Também odeio quando acham que a vida tem que ser um teste de visão no ofalmo: “Se você tirar os óculos, você consegue ver quantos dedos têm aqui?”. Ai que vontade de responder o que a pessoa deve fazer com aqueles dedos. Mas sou educado, lembra que falei agora há pouco?

Mas sabe por que eu vim aqui fazer esse desabafo? Porque agora recentemente publicamos um vídeo no Instagram do blog dando a nossa cara a tapa. E sabe qual foi o primeiro comentário que recebi?

“Eu queria mesmo era esse óculos pra ver Saturno aqui de casa”.

Não vou mentir e dizer que estou 100% superado em relação a isso. Cada vez que aparece algum comentário assim eu sinto que aquele menininho de 5 anos volta aqui dentro. Bate uma insegurança imensa e a minha autoestima vai lá pro chão.

Fora dos padrões estéticos na internet (Foto: Esse Mundo é Nosso)

As pessoas são más e não ligam de fazer uma piadinha idiota mesmo sabendo que alguém do outro lado vai sofrer com isso. Mas, ainda bem, essa insegurança dura cinco segundos e eu percebo que estou aqui justamente para isso. Estou aqui para quebrar os paradigmas e os padrões estéticos na internet.

Eu cresci sabendo que a TV criava um padrão e que eu estava totalmente fora dele. Mas aí vieram as redes sociais e parecia que eu poderia finalmente ser quem eu sou sem precisar esconder meus óculos.

No começo, fazia vídeos apenas com a minha voz. Mas chegou uma hora que eu falei: “Quer saber? Vou mostrar a minha cara e pronto”. Achava que sempre fosse aparecer algum comentário desse tipo, mas, pra minha surpresa, isso é bem raro de acontecer.

Quem acompanha o blog está lá porque gosta do nosso conteúdo e da gente. E eu vou lutar até o fim para que a internet não se torne uma nova TV. Para que aqui gordos, magros, altos, baixos, negros, loiros, orientais, tatuados e pessoas com óculos fundo de garrafa tenham sempre espaço. Porque somos muito além do que a nossa aparência demonstra. E não podemos ligar por estar fora dos padrões estéticos na internet.

Eu aprendi com o tempo a enxergar as pessoas além dos olhos! Dos meus e dos delas. Aprendi a enxergar pra dentro muito mais do que pra fora. E isso que me motiva a continuar.

Já falei isso aqui e acho importante sempre repetir: uma pessoa que faz um comentário como esse gasta 10s da vida dela. Às vezes está no banheiro e resolve julgar alguém assim em poucos segundos. Só que depois disso, ela rola o dedo e passa pra próxima foto ou vídeo. O mesmo não acontece com quem recebe esse tipo de comentário.

A pessoa lê a mensagem e aquilo fica marcado pra sempre nela. Traz de volta todos aqueles sentimentos ruins, toda aquela insegurança e joga a autoestima pro chão. Só que alguns têm a sorte de ler, sentir isso por alguns segundos e seguir a vida. Outros não. Outros ficam mal de verdade e isso pode causar estragos sérios na vida da pessoa. E não é brincadeira! É coisa séria!

Bullying (Foto: Esse Mundo é Nosso)

É fácil falar pra pessoa não ligar pro que está lendo e que tem um monte de gente que gosta dela do jeito que ela é. Mas saber que estão criticando algo que você não tem culpa dói bastante.

Infelizmente, existe muita gente cruel, que gosta de ver os outros sofrerem. Existe muita gente idiota também, que faz este tipo de coisa sem ter a menor noção do aquilo pode significar.

Mas, felizmente, também existe muita gente legal, de coração bom e energia boa. Temos que aprender a gastar tempo com esse tipo de pessoa. Os outros, a gente precisa apenas deixar passar, lamentar e bloquear. Elas servem de combustível pra gente querer fazer cada vez mais e melhor.

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Sobre o Autor
Adolfo Nomelini
Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

Uma resposta

  1. Que texto maravilhoso, Adolfo.
    Sempre acompanho vocês! Sempre haverá pessoas ruins, mas que bom que não se deixa abater por isso.

    Desejo só sucesso. 🙂

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Rafael Carvalho

Somos Adolfo Nomelini e Rafael Carvalho, dois jornalistas que trabalham com conteúdo digital há mais de 10 anos. Aqui você encontra nossas dicas de viagens pelo Brasil e o mundo.