Sobre a crise dos 29 e a importância de viver sem rótulos

Escrevo esse texto pouco antes de receber minha primeira mensagem de parabéns pelos 29 anos. A TV, ao meu lado, está ligada no canal de áudio com sucessos dos anos 2000. Nostálgico, devo estar na crise dos 29. Estou em crise. Não. Na verdade, estou reflexivo.

Lembro de quando fiz 19 anos. Os 19 não me assustavam com a proximidade dos 20. Entrar na segunda década não parecia ser tão difícil quanto é sair. A crise nos 19 era tão grande que não importava a idade. Faculdade, indecisões, novos amigos, busca por um emprego, medo e incertezas do futuro. Futuro este que vivo agora. Com 19, os 30 pareciam tão longe que não estavam nos planos daquele momento.

Crise dos 29 (Foto: Shutterstock)

Foto via Shutterstock

A idade não me assusta. O que amedronta é ver o tempo passar tão rapidamente. Os que possuem décadas a mais de experiência certamente lerão isso com aquele pensamento: “Tão novinho com 29 e se achando velho”. Já os de 16 pensarão o contrário: “Aff! Que velho”.

Não me sinto velho. E não poderia. Mesmo quando os 30 não eram os novos 20 uma pessoa de 29 anos não poderia se sentir velha. Mas sinto o tempo passar e isso sim me assusta. Se os próximos dez anos forem tão velozes quanto os últimos dez…

Crise dos 29 (Foto: Shutterstock)

Foto via Shutterstock

De repente, escuto minhas músicas favoritas e percebo que aquela que há quase dez anos elegi como uma das músicas da minha vida já não vale tanto assim. Twentysomething, do Jamie Cullum.

“Amor não é a resposta, trabalho também não é
A verdade é tão incompreensível que dói
Mas eu continuo me divertindo e acho que essa é a chave
Eu tenho vinte e poucos e continuarei sendo eu mesmo”.

Agora eu tenho vinte e muitos, mas continuo com as mesmas dúvidas da letra da música: “Quem sabe as respostas? Em que você confia? (…) Não me faça viver para minhas sextas-feiras à noite”. O peso da responsabilidade aumentou. Começo a pensar no futuro com mais medo e preocupação. Mas não parece que eu mudei tanto assim nestes últimos anos. Olho para os meus amigos e todos parecem estar com as mesmas caras de tempos atrás.

Começo a me comparar com os outros. Não amigos, não contemporâneos. Mas começo a lembrar de quando pessoas hoje mais velhas tinham 29 anos. Isso também me assusta. Pareciam tão confiantes, tão maduras, tão donas de si. Talvez apenas pareciam.

Penso então na minha sobrinha de 3 anos. Sim. Uma criança ajuda a curar até crises de idade e reflexões. Ontem, perguntei para ela quantos anos eu ia fazer. Pensativa, disse que não sabia responder. Pedi para chutar alguma idade. Pensei até que ela pararia de andar para dar um chute com a perna, mas, esperta,  já aprendeu o que é uma metáfora. Olhou para mim e disse na lata: “Quarenta”. Não esbocei reação de susto. Afinal, é uma criança de três anos. Disse que não e pedi para ela dizer outra idade: “Onze”.

Crise dos 29 (Foto: Shutterstock)

Foto via Shutterstock

Mais uma vez ela tinha a resposta certa para o que eu precisava ouvir. Pra que serve uma idade? Devemos ser como as crianças. Vivem sem rótulos. Não vivem pelas diferenças. Para ela tanto faz eu ter 11, 29 ou 40. Preciso ter energia para brincar e conversar com ela. A idade não faz a menor diferença para ela desde que haja compreensão e diversão.

E a vida é exatamente isso. A cada ano descemos mais os números na hora de preencher um cadastro na internet. E é basicamente só isso. Depois de uma certa idade, tanto faz a idade que fazemos. Os nossos amigos podem ser 10, 20, 30 anos mais novos ou mais velhos. Teremos os mesmos interesses e os mesmos assuntos.

Crise dos 29 (Foto: Shutterstock)

Foto via Shutterstock

Não precisamos viver pela nossa idade. Temos que ter consciência, claro. Não podemos ser adolescentes ou idosos aos 30 ou 40. Mas temos que ser nós mesmos sem etiquetas com ano de nascimento. Afinal, tudo é simplesmente vida. Desde o dia que demos nosso primeiro choro, não sabemos se chegaremos ao primeiro ano, aos 10, 50 ou 100. Vamos apenas vivendo com essa incerteza. O que vale é hoje. Não venha com o papo de “na minha época era diferente”. A sua época é agora. O que vier é lucro.

+ Leia mais crônicas
+ Quanto custa a sua felicidade?
+ Viajar me fez dar importância ao que realmente importa
+ Por que ainda me assusto com a falta de educação das pessoas

TALVEZ VOCÊ TAMBÉM GOSTE

Adolfo Nomelini

Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

10 Comments

  1. Dani disse:

    Acabo de fazer 29 anos. E estou na faculdade. Nunca devemos nos prender a número de idade. Eu nunca me senti tão jovem.

  2. Rafaela santos disse:

    Esse texto, foi minha inspiração no dia de hoje : 29/03/19 ,o dia em dou Adeus, aos 20 e poucos.
    E pulo repentinamente para os 3.0
    Passei o dia refletindo e procurando ispiração pra essa loucura,e só me veio a sensação de gratidão, gratidão pelas quedas, pelas cicatrizes, pelas lágrimas, pela força, pelo aprendizado adquirido nessas 3 decadas(uuuaaaauuuuuuuu a caçulinha da mamãe,trintou).
    É verdade!

    Quão bom é viver!
    Sou grata!

  3. ismael da costa vieira disse:

    estou perto dos 29 anos mais to feliz o importante e viver,,,,,,

  4. Ana Langort disse:

    Super amei o texto. Realmente a crise dos 29 (….30) vem com tudo pra quebrar todos os rótulos.
    Estou vivendo parecido e já percebi que a vida esta só começando .
    Obrigada pela leitura!!!

  5. Rafa disse:

    Adorei o texto, estou perto dos 29 e confesso que estou medo.

  6. Bruna disse:

    Muito legal o texto!

  7. Que texto legal Adolfo. É isso aí, não importa a idade, sempre vai bater aquela insegurança de que o tempo está passando muito rápido, de que tínhamos tantos planos e que a vida foi correndo, e será que vamos conseguir realizar tudo o que sonhamos. São apreensões de todos, não importa a idade, seja 40 ou 11 anos. O mais importante é carregar cada vez mais experiências para contar. Um feliz aniversário e um abraço enorme para você!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *