No começo do ano, eu li uma entrevista da Angélica pra revista Joyce Pascowitch. Entre outros assuntos, um me chamou atenção e me fez pensar por alguns dias naqueles primeiros momentos de 2020. Reproduzo aqui o que um trecho do que a apresentadora falou:

“O que tenho trabalhado muito com meus filhos e com ele (Luciano Huck) é que, nessas mil possibilidades com a internet, acho que quem vai se dar bem na vida nos próximos anos é quem tiver uma boa inteligência emocional. Porque vem aí a inteligência artificial, as plataformas todas novas, novos empregos, novas formas de viver, e quem não tiver uma boa cabeça para sustentar isso vai pirar”.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Se isso já me fez pensar em janeiro, quando vivíamos aparentemente de uma maneira normal, imagine no meio de uma pandemia.

Inteligência emocional (Foto: Pixabay)
Inteligência emocional (Foto: Pixabay)

Parece até uma profecia da Angélica, né? Na época, conversei com o Rafa, meu sócio aqui no blog, sobre isso. Falamos sobre como esse avanço tecnológico estava nos tornando rasos e como as pessoas, em geral, estavam mais preocupadas com o celular do que o próprio bem estar.

Conversamos e alguns dias depois fomos viajar. Uma das nossas últimas viagens na “era normal”. Passamos dez dias na Riviera Maya e em Cancún, no México, trabalhando. Lá pro oitavo dia, surtamos. Pela primeira vez, tivemos uma discussão bem séria em uma viagem. Daquelas que um deixa o outro falando sozinho e sai.

Praia em Tulum, no México (Foto: Esse Mundo é Nosso)
Praia em Tulum, no México (Foto: Esse Mundo é Nosso)

Andamos umas dez vezes pela mesma rua em Playa del Carmen conversando e tentando entender o que estava acontecendo. Chegamos à conclusão de que não estávamos viajando de verdade. Nossos corpos estavam, mas nós não estávamos inteiros. Faltou exatamente inteligência emocional para lidar com tudo aquilo.

A água linda do mar era mais linda pras fotos do que pros nossos olhos. O pôr do sol tinha que ser perfeito pros vídeos e não pra gente. A comida tinha que ser bonita pro Instagram e não gostosa. A gente precisava andar por todas as praias não para conhecer, mas para escrever no blog.

Mar de Cancún (Foto: Esse Mundo é Nosso)
Mar de Cancún (Foto: Esse Mundo é Nosso)

Sim. Esse é o nosso trabalho, mas não soubemos dosar e deu no que deu. Pena que percebemos tão tarde. A gente estava lá, mas a nossa cabeça estava nos números de curtidas, na audiência, nas reservas de hotel, na publicidade que precisávamos gravar, nas mensagens do WhatsApp que não paravam de pipocar. Estávamos no México, mas poderíamos estar em qualquer lugar.

Conversamos muito, entendemos a situação e conseguimos aproveitar os dois últimos dias da viagem dividindo trabalho e lazer. Afinal, escolhemos esta profissão justamente para podermos viver essas experiências.

Voltamos pra nossa realidade, veio o Carnaval e viajamos de novo pra Bahia. No meio da viagem, fomos pegos pela pandemia. Na ida, o aeroporto estava normal. Eram poucas as pessoas com máscara. De repente, precisamos adiantar nosso voo de volta e chegamos no meio de um mundo do avesso.

E, justamente no meio dessa confusão toda, a tal inteligência emocional se faz tão necessária. Se não estivermos com a nossa cabeça saudável, não estaremos com mais nada. Acho que praticamente todos devem estar sofrendo altos e baixos nesta pandemia. Afinal, são muitas incertezas (ainda mais aqui no Brasil). Chega a ser desesperador, mas quem conseguiu cuidar um pouco mais de si antes de tudo isso, talvez esteja conseguindo levar a situação de uma maneira menos pior.

Este é um dos aprendizados pra mim neste distanciamento social. Nós somos nossos maiores bens. Não vou ser hipócrita e falar que dinheiro não é bom nem que não gosto de ter o melhor celular do mundo (até porque meu trabalho exige isso), mas, é aquilo que eu já falei, não podemos ser rasos. A vida não é só isso.

Do que vale ter um aparelho que conversa com você, que acende e apaga a luz quando você pede ou ter uma plataforma de filmes e séries prontas para quando você quiser assistir, um aplicativo para pedir o que você tiver vontade na hora que quiser ou um outro que fala exatamente o caminho que você tem que seguir no trânsito se você não estiver bem com você mesmo?

Não existe tecnologia que compre nosso bem estar, nosso sono tranquilo sem precisar de remédio, nossa risada natural e nosso discernimento para tomar decisões em momentos difíceis. Todos estão tão preocupados com o que há de mais novo e moderno que estamos esquecendo do essencial, da nossa própria essência.

Existem técnicas e aprendizados para ajudar a melhorar a nossa inteligência emocional, mas se tentarmos deixar de lado um pouco as redes sociais, por exemplo, e voltar a conversar de verdade já vai ser um bom caminho a seguir.

Em janeiro, quando li a entrevista da Angélica, e vi que ela estava falando da importância disso tudo para o futuro, não imaginava que poderia ser para algo tão próximo. Nem ela. Na ocasião, a apresentadora falava da estreia de seu novo programa, que nem chegou a ir ao ar por causa da pandemia.

O mundo virou de cabeça pra baixo de uma hora pra outra e pegou todo mundo de surpresa. Talvez, a partir de agora seja o momento de tentar pensarmos mais no que sentimos e em quem somos. Será que vamos aprender algo com tudo isso? Só o tempo dirá.

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Sobre o Autor
Adolfo Nomelini
Jornalista formado pela PUC-SP e pós graduado em Comunicação em Mídias Digitais, é apaixonado por música, coxinha, televisão, seus óculos e internet. Trabalha há 8 anos com conteúdo online e passa boa parte do tempo "jogando o corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, deixando e recebendo um tanto".

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Rafael Carvalho

Somos Adolfo Nomelini e Rafael Carvalho, dois jornalistas que trabalham com conteúdo digital há mais de 10 anos. Aqui você encontra nossas dicas de viagens pelo Brasil e o mundo.